A esterilização consiste na remoção da fonte hormonal que controla a função reprodutiva e o desenvolvimento das características sexuais secundárias. Apesar do principal objetivo da esterilização ser a prevenção da reprodução descontrolada, existem evidências sobre efeitos a nível físico e comportamental dos animais sendo importante seguir aconselhamento veterinário para o fazer na idade e nas circunstâncias certas.

 

Esterilização – Qual o impacto na sociedade?

A esterilização tem um papel importantíssimo na vida do animal e na sociedade. Existem actualmente dados estatísticos mundiais que referem que o abandono e a sobrepopulação de animais errantes é uma das principais causas de eutanásia em muitos países por todo o Mundo. Para além disso sabe-se que animais inteiros (não esterilizados) têm maior probabilidade de serem abandonados devido a comportamentos sexuais desajustados, marcação de território e alguns casos de agressividade com outros animais.

A sobrepopulação animal tem impacto na vida individual destes animais que vivem sem direito a cuidados básicos, de saúde e sem o afecto de uma família. O aumento de animais errantes também levanta questões de saúde pública nomeadamente o risco de transmissão de doenças entre animais e para os humanos (zoonoses) assim como o risco de ataques por formação de matilhas errantes que lutam para sobreviver. As mentalidades estão a mudar mas temos de ter a consciência que as coisas só podem evoluir positivamente se todos agirmos individualmente com um objectivo comum em vista.

Recentemente entrou em vigor a Lei n.º 27/2016 que aprova medidas para a criação de uma rede de centros de recolha oficial de animais e estabelece a proibição do abate de animais errantes como forma de controlo da população”. Todos concordamos que esta lei é uma vitória conseguida na ajuda a animais abandonados mas temos todos de ter consciência que o nosso país não tem a capacidade física nem os meios disponíveis para recolher todos os animais errantes e assegurar os devidos cuidados básicos e de saúde que merecem. O papel dos Médicos Veterinários é importante mas o papel da sociedade em geral é mais importante ainda. As pessoas têm de escolher adoptar de forma consciente e esterilizar os seus animais de modo a reduzir as taxas de abandono e a sobrepopulação nas ruas e canis. Para além disso, os tutores dos animais com fins reprodutivos devem fazer reprodução consciente e devidamente acompanhada por um Médico Veterinário para garantir o respeito pela saúde e dignidade de cada animal reprodutor mesmo após o término da sua vida reprodutiva.

Quando esterilizar e quais os métodos de esterilização disponíveis?

Nos cães e nos gatos é recomendado a esterilização a partir dos 6 meses. Em cães de raças grandes/gigantes é aconselhável uma esterilização mais tardia pelo impacto que tem no desenvolvimento ósseo. O momento da esterilização deve ser avaliado pelo Médico Veterinário mediante a espécie, raça, género e circunstâncias envolventes.

A esterilização pode ser feita com recurso a métodos químicos ou cirúrgicos. A esterilização química na maioria dos casos é feita com recurso a terapia hormonal e geralmente só inibe transitoriamente a função reprodutiva. Esta pode ser útil em reprodutores ou em casos de agressividade para excluir/confirmar a influência hormonal antes da esterilização definitiva. Nas fêmeas é totalmente desaconselhado o uso de anticonceptionais pelos motivos anteriormente referidos mas também porque têm graves efeitos secundários a médio/longo prazo ao contribuir para o desenvolvimento de tumores e infeções uterinas e mamárias.

Na maioria dos casos é aconselhável a esterilização cirúrgica preventiva onde é inibida a função reprodutiva permanentemente. Este tipo de cirurgias são rápidas e acarretam baixos riscos. Os animais são submetidos a anestesia geral pelo que não é um procedimento doloroso e a recuperação pós-cirúrgica é rápida – em 24-72 horas a maioria dos animais retoma a sua rotina normal. Apesar de o risco anestésico em animais jovens ser baixo, aconselhamos sempre a realização de análises pré-anestésicas para minimizar o risco associado e jejum pré cirúrgico adaptado à idade do animal.

Nas fêmeas a esterilização é feita por ovariectomia (remoção dos ovários) ou ovariohisterectomia (remoção dos ovários e do útero) sendo sempre necessário aceder à cavidade abdominal. Actualmente existem 2 técnicas disponíveis: a laparotomia onde é feita incisão da cavidade abdominal para remoção dos ovários e do útero, e a laparoscopia onde são realizados apenas pequenos orifícios e com o auxílio de um endoscópio com câmara é feita apenas a remoção dos ovários. Existem estudos que referem que a laparoscopia apesar de ser um procedimento cirúrgico mais caro, é mais rápida, menos invasiva e apresenta menor período de recuperação. Na prática a remoção apenas dos ovários ou remoção conjunta dos ovários e útero não evidencia diferenças a nível de impacto na saúde futura da fêmea.

Nos machos é comum fazer-se orquiectomia (remoção dos testículos). Este procedimento é mais simples e rápido não sendo necessário a incisão da cavidade abdominal visto que os testículos são removidos directamente da bolsa escrotal. A realização da vasectomia (interrupção do canal deferente sem remoção dos testículos) também pode ser realizada mas é desaconselhada porque apesar de o cão ficar infértil continua a produzir testosterona normalmente (ao contrário dos machos que realizam orquiectomia) mantendo todo o comportamento sexual associado sem os efeitos benéficos a longo prazo da esterilização definitiva.

 

Em machos criptorquídicos, em que os testículos não descem para a bolsa escrotal até aos 6 meses, é sempre aconselhável a orquiectomia devido ao risco de desenvolvimento de tumores testiculares. Nestes casos, o testículo criptorquídico pode estar localizado subcutaneamente (debaixo da pele em local errático) ou intrabdominal (dentro do abdómen). Quando o testículo criptorquídico está localizado na cavidade abdominal a sua remoção poderá ser feita por laparotomia ou em alguns casos por laparoscopia, tal como nas fêmeas. Estes animais não devem ser usados como reprodutores pois podem transmitir esta anomalia a gerações seguintes.

Quais os mitos associados à esterilização?

Muitos tutores ainda acreditam que a esterilização é contranatura. No entanto, foi o Ser Humano que selecionou e humanizou os nossos animais de companhia e atualmente a maioria apresenta comportamentos domesticados e dependem de nós para sobreviverem. A sexualidade do cão e do gato tem influência sobretudo hormonal e não psicológica e por essa razão os machos não têm uma necessidade de acasalar, assim como as fêmeas não têm necessidade de experienciar a maternidade. Não existe qualquer benefício para a saúde da fêmea ter uma gestação/ninhada antes de serem esterilizadas. Pelo contrário, devem ser esterilizadas antes ou logo após o primeiro cio para reduzir a incidência de tumores mamários.

A verdade é que a esterilização não causa dano psicológico nem altera a personalidade do animal e pode evitar doenças graves permitindo que vivam mais tempo.

Atualmente ainda existem tutores que ficam enternecidos com a possibilidade de uma ninhada em casa. No entanto, todos estes cachorros/gatinhos vão crescer e vão precisar de uma família responsável e de cuidados básicos e médicos durante toda a sua vida. Infelizmente, na maioria dos casos, este é mais um factor crítico para o abandono. Antes de decidir ter uma ninhada aconselhamos sempre os tutores a reflectir sobre as condições que vão realmente conseguir assegurar para cada animal individualmente no futuro. Por cada animal que nasce com um futuro incerto estamos também a retirar a oportunidade a um animal errante jovem, adulto ou geriátrico de encontrar casa.

A obesidade é outro mito associado à esterilização. No entanto, existem outros factores predisponentes para o animal ficar obeso como o estilo de vida do animal e do respectivo tutor. A prevenção da obesidade, independentemente do animal ser esterilizados ou não, passa pela escolha de uma dieta adequada à idade e ao estilo de vida do animal, assim como o aumento da sua actividade física.

A esterilização deve ser desmitificada por ser um procedimento simples, com baixos riscos que pode trazer inúmeros benefícios para o animal e para a sua inserção na sociedade.

 

Patricia Soares

Médica Veterinária

Hospital Referência Veterinária Montenegro

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