A doença inflamatória intestinal crónica (Inflammatory bowel disease – IBD) reúne um grupo de entidades clínicas caracterizadas pela persistência de sintomas gastrointestinais associados a inflamação do intestino delgado, podendo estender-se ao estômago e intestino grosso. A sua etiologia é desconhecida sendo, contudo, considerada multifatorial em que a suscetibilidade genética, os fatores ambientais (flora bacteriana residente) e o sistema imunológico da mucosa intestinal têm um papel importante.

Atualmente pensa-se que existe uma resposta imunitária exacerbada ou incorreta perante uma variedade de antigénios, incluindo a flora bacteriana normal do intestino, componentes da dieta ou inclusivamente conteúdos próprios do aparelho digestivo em contacto com a mucosa intestinal. As camadas internas da parede intestinal são infiltradas por células inflamatórias, levando ao aumento da sua espessura (Figura 1). Ocorrem alterações a nível da absorção e do peristaltismo, que por sua vez podem conduzir a alterações na microbiota intestinal, assunto presentemente alvo de intensa investigação.

 

 

Figura 1 – Figura representativa das diferentes camadas do intestino. A – Intestino com camadas de espessura normal. B – Intestino com camada mucosa de espessura aumentada, como ocorre na IBD.

Que sintomas poderá apresentar o seu animal?

A IBD caracteriza-se por sinais clínicos inespecíficos, sendo o vómito e diarreia persistentes ou recorrentes e a perda de peso os mais comuns. Embora o apetite possa estar aumentado, é habitual ocorrer perda de peso devido à existência de uma síndrome de má absorção, fezes mais volumosas, de cor geralmente mais clara, flatulência, borborigmos, esteatorreia e presença de alimentos não digeridos.

Quando o intestino grosso é afetado ocorre tenesmo, hematoquézia e muco nas fezes. Frequentemente surgem sinais clínicos associados que se devem já a complicações, como é o caso de ascite e/ou edema nos membros devido a hipoproteinémia ou palidez das mucosas por hemorragia gastrointestinal crónica

Como se diagnostica?

O diagnóstico definitivo de IBD é feito através da realização de biópsia intestinal (colheita de fragmentos), seja por via endoscópica seja por via cirúrgica. O resultado do exame anatomopatológico das amostras recolhidas, vai basear-se nas características microscópicas do intestino, nomeadamente no tipo de células inflamatórias presentes. Ora sabe-se que vários fatores etiológicos são capazes de provocar inflamação intestinal semelhante à da IBD, o que pode levar a erros de diagnóstico.

É por esta razão que o diagnóstico de IBD tem de ser feito por exclusão. Assim, o trabalho de investigação é extenso e frequentemente demorado, uma vez que têm de ser eliminadas todas as outras causas de diarreia crónica. A presença de alergia alimentar, parasitas intestinais, insuficiência pancreática exócrina, hipertiroidismo, entre outras, têm obrigatoriamente de ser descartadas previamente. É para isso necessário realizarem-se análises laboratoriais (sangue, urina e fezes) e na maioria dos casos o estudo por imagem, previamente à realização de biópsia.

Como se trata?

O tratamento da IBD envolve uma combinação de medidas dietéticas e farmacológicas. A terapêutica dietética é um pilar importantíssimo no controlo da doença. De facto, nalguns tipos de IBD a modificação da dieta permite a resolução parcial ou total dos sinais clínicos e das lesões histológicas. Para isso, a dieta deve ser de alta digestibilidade para que os seus constituintes sejam facilmente assimilados face a uma função digestiva diminuída.

As dietas comerciais constituídas por proteínas hidrolisadas, que sofrem um tratamento químico ou enzimático originando derivados proteicos de baixo peso molecular demonstraram ser menos alergénicas. Podem também utilizar-se dietas caseiras com uma única fonte proteica com a qual o animal nunca tenha contactado. Contudo, recentemente, um estudo veio demonstrar que ˃90% das receitas eram nutricionalmente inadequadas, com deficiência em cálcio, cobre, manganésio e vitamina B12, e excesso de lípidos.

A terapêutica médica assenta na combinação de antibioterapia e medicação imunossupressora. A IBD é uma doença complexa em termos de resposta ao tratamento. É frequentemente necessário testar diferentes combinações de fármacos, fazer ajustes nas doses e/ou na frequência das tomas.

Necessita de monitorizações frequentes e de um contacto estreito com o Médico Veterinário assistente.

 

Rodrigo Niza

Médico Veterinário

Azevet Clinica Veterinária

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