Toda a gente que já teve, tem, ou pensa vir a ter um coelho, já se deve ter deparado com várias questões relacionadas com os dentes:

– Porque crescem os dentes dos coelhos?

– Também vou ter que cortar os do meu coelho?

– Posso fazer alguma coisa para evitar?

Pois bem, tentaremos esclarecer de uma forma simples e clara toda esta problemática da dentição destes animais tão simpáticos.

Para começar, é preciso compreender que os dentes desta espécie crescem continuamente ao longo da vida do animal. Isso acontece porque no meio natural a sua dieta é composta maioritariamente por diversas plantas fibrosas. Este tipo de alimento exige uma mastigação bastante exaustiva, levando a um desgaste muito intenso dos dentes do animal. Assim, para fazer face a este enorme trabalho, a Natureza desenvolveu esta estratégia para os coelhos: os seus dentes vão crescendo diariamente para compensar o correspondente desgaste da dieta.

Se de repente o mesmo coelho mudasse de ambiente e começasse a alimentar-se com uma dieta pouco fibrosa e fácil de mastigar, o que é que aconteceria aos seus dentes? Exatamente! Cresceriam demais! Pois é isso que acontece quando mantemos um coelho nas nossas casas e nos esquecemos do que é a sua dieta natural. Os seus dentes não só ficam maiores, como também se desviam do seu alinhamento natural, levando ao que normalmente se chama de Maloclusão Dentária Adquirida (MDA). Assim, para evitar que os dentes destes animais fiquem demasiado grandes, devemos oferecer-lhes uma dieta composta por plantas herbáceas fibrosas, nomeadamente o feno, que não é mais do que estas plantas desidratadas para melhor conservação e acesso. Tudo o resto deve ser considerado um suplemento à dieta. Para as rações, que deverão ser do tipo Pellets, podemos pensar em deixar disponíveis por um período limitado de tempo, nunca superior a 1 hora diária. No caso dos legumes, podemos oferecer até 2 vezes por dia, durante 10-15 minutos de cada vez. Já a fruta deve ser restringida para no máximo 1 ou 2 vezes por semana, por 5 a 10 minutos, devendo mais ser considerada uma guloseima.

Fig1 – Oclusão de incisivos normal

 

Fig 2- Maloclusão dos incisivos num coelho

            Existem outros fatores por vezes associados a este sobrecrescimento dentário, como carências em cálcio, traumatismos, infeções e predisposições genéticas. No entanto, o principal é a dieta!

 

Portanto, felizmente, com uma dieta adequada, os dentes do meu coelho não deverão ficar grandes demais! Por vezes, no entanto, estes bichinhos são lambareiros e, depois de provarem outros alimentos, como as rações de mistura (tipo muesli), ficam viciados e dizem que não ao feno. E aí sim, é mais provável que os dentes comecem a dar problemas…

– E como é que sabemos que os dentes do nosso coelho estão a crescer demais?

Os sinais clínicos podem variar bastante. Normalmente vemos que o animal perde o apetite, ou que tenta comer mas não consegue, e que já não está tão ativo como antes (anorexia e apatia). Mas também podemos encontrar um coelho que deixa de conseguir manter a pelagem limpa e bonita, ou que deixa de comer os cecotrofos (é verdade… os coelhos comem cecotrofos, que são um tipo de fezes moles que eles ingerem diretamente do ânus). Também podemos ver um coelho que se apresenta com corrimento ocular, com presença de parasitas externos, que não defeca, ou que tem sempre o pelo do pescoço molhado, com saliva a escorrer pelo canto da boca. Por vezes a MDA é facilmente identificada pelos tutores destes animais, quando se trata de sobrecrescimento dos incisivos (os conhecidos “dentes-de-coelho”, ou dentes da frente). No entanto, quando o problema está nos dentes posteriores, molares e pré-molares (também chamados dentes de trás), a maior parte dos tutores não consegue identificar o problema. Na verdade, a maior parte das pessoas desconhece que os coelhos têm dentes na parte mais interna da cavidade oral. Enfim, os sinais podem ser variados, e um Médico Veterinário (MV) com alguma experiência no tratamento destes animais vai com certeza associá-los a um possível problema de Maloclusão Dentária Adquirida. Nesse momento, através de um exame oral e de outros exames complementares como o Raio X, o MV vai poder confirmar a presença do problema e poder aconselhar um tratamento adequado. Normalmente esse tratamento passa por anestesiar o paciente e submetê-lo a um desgaste dentário dos dentes que estiverem maiores do que o normal. Em casos específicos outras soluções poderão ser necessárias, como a extração dentária, a marsupialização de abcessos, a desobstrução de ductos lacrimais, entre outras.

E este problema da MDA acontece só aos coelhos? Não, muitos roedores, como o porquinho-da-Índia e a chinchila padecem da mesma patologia, com uma apresentação clínica muito semelhante, devendo também ter uma dieta essencialmente constituída por feno.

Infelizmente, uma vez desenvolvida a Maloclusão Dentária Adquirida, seja em coelhos ou em roedores, ela raramente desaparece, tendo o paciente que ser submetido a diversos e periódicos tratamentos dentários. Por isso, e pelos custos, riscos e transtornos associados, melhor que tratar os dentes dos nossos coelhos, é mesmo evitar que eles cresçam demais!

Dê feno ao seu coelho! Muito, muito feno!

Fig 3 – Rx de crânio de coelho

Fig 4- Chinchila preparada para tratamento dentário

Até ao próximo mês com mais novidades sobre os nossos amigos!

Joel Ferraz

Médico Veterinário

Centro Veterinário de Exóticos do Porto

 

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