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Há alguns possíveis cenários no que toca à recuperação dos cães com hérnias extrusivas:

– Recuperação com retorno à normal função dos membros sem alterações neurológicas ou com ligeiras alterações neurológicas (alteração da marcha, mas sem comprometimento da capacidade de caminhar e autonomia do animal);

– Recuperação parcial, com capacidade de caminhar, mas défices neurológicos severos (animais com marcha descoordenada);

– Falha na recuperação, na qual o animal permanece sem a capacidade de caminhar e ser autónomo.

No ponto de vista do veterinário, o sucesso no tratamento (quer cirúrgico quer médico) de um animal com hérnia discal prende-se com a melhoria da condição neurológica com que o animal se apresenta, isto é, se um cão não consegue sustentar o peso e caminhar, sucesso é quando ele o consegue fazer, mesmo que seja de uma forma descoordenada. Assim, a recuperação parcial num animal sem capacidade de caminhar, é um sucesso no que diz respeito ao tratamento veterinário.

A grande maioria de animais operados nos estadios iniciais de lesão neurológica tem uma probabilidade de recuperação superior a 95%. Quando o animal nos chega com paralisia dos membros traseiros, já sem capacidade de sentir as patinhas, a probabilidade de recuperação diminui drasticamente para <50%. E é exactamente nestas situações que os tutores apresentam maiores dúvidas:

– Irá o meu animal de estimação recuperar? Quando há perda de sensibilidade, o prognóstico passa a ser SEMPRE desfavorável a expectante. Não podemos de forma científica estabelecer se o animal vai recuperar ou não. A experiência diz-nos que devemos sempre partir do pressuposto que não vai recuperar a capacidade de caminhar e começar a preparar-nos para as decisões futuras que teremos que tomar, e também pensar que a recuperação, a acontecer, poderá demorar vários meses.

– O que posso fazer para aumentar a probabilidade de recuperação do meu animal sem sensibilidade? A maioria dos animais que se apresentam sem sensibilidade têm ou tiveram hérnias de grande impacto e alteração da medula espinal severa, com compressão severa da mesma. Assim, o primeiro passo é a descompressão cirúrgica seguida de reabilitação e fisioterapia intensiva (já falados no post anterior).

– Para além de não conseguir caminhar, o meu animal pode ficar incontinente? Dependendo do grau e da localização da lesão, SIM, os nossos patudos com lesão medular grave podem ficar incontinentes, quer a nível de urina como de fezes (ou seja, apresentarem perdas de urina e fezes, não controladas). Em algumas situações poderá ocorrer o inverso, em que o animal não consegue urinar sozinho, e é necessário realizar compressão da bexiga.

– Que alterações podem decorrer da incapacidade de urinar/defecar normalmente? As principais complicações são dermatites na região de contato da urina e fezes, assim como infecções urinárias.

– O meu animal vai necessitar de cuidados continuados? Sim. A partir deste momento, temos de considerar que o seu animal vai precisar da sua ajuda para mover-se, urinar e para tratar da higiene. Têm que ter sempre uma cama confortável, alta e limpa, e trocarem de posição várias vezes por dia, para evitar feridas nas protuberâncias ósseas (à semelhança das pessoas acamadas). No caso dos animais que não sejam capazes de urinar sozinhos, tem de ser realizada a compressão da bexiga várias vezes por dia.

Fig 1: cuidados de higiene e cama; Fig 2: compressão da bexiga;

– Os cães também andam de cadeira de rodas? Sim, as cadeiras de rodas são uma opção viável para cães que não recuperam a marcha, mesmo após todos os esforços. Existem várias empresas que se dedicam à construção personalizada, tendo em conta as dimensões e alterações neurológicas do animal, mas também existem vários tutoriais na internet, para que possa contruir uma cadeira de rodas em casa. Existem ainda “roupas” especiais que tapam os membros traseiros para que estes não sejam magoados quando o animal arrasta as patinhas, assim como arneses de suporte, em que é o tutor que controla os membros e impede que estes toquem no chão.

– Que animais são candidatos à cadeira de rodas? De uma forma simplista, qualquer animal é candidato. No entanto, de uma forma prática, estabelecem-se alguns requisitos: ausência de dor na coluna, capacidade de urinar sozinho, tamanho. Embora o tamanho não seja impeditivo, sabemos que animais de porte pequeno-médio se adaptam melhor às cadeiras, assim como em termos de maneio, é mais fácil para o tutor tratar de um animal incapacitado de 10kg do que de um de 40kg. A incapacidade de urinar sozinho poderá não ser um fator de exclusão, dependendo da decisão e capacidade do tutor em lidar com a situação.

O meu cão não tem sensibilidade mas consegue mover-se. O veterinário disse que desenvolveu marcha espinal, o que é isso? Mesmo sem passagem e integração da informação nervosa entre o cérebro e os membros posteriores, alguns animais desenvolvem uma marcha reflexa, não controlada pelo cérebro, chamada de marcha espinal. Trata-se de uma forma de caminhar completamente descoordenada, mas que acaba por garantir alguma autonomia por parte do animal. Acontece especialmente em cães mais pequenos.

– Mesmo paralisado, o meu animal pode ter uma vida normal? À parte da utilização dos membros traseiros, o corpo do seu animal continua a trabalhar como em qualquer outro. Assim, desde que esteja confortável (sem dores) e se mantenha numa boa condição higiénica, e muitas vezes com o recurso às cadeirinhas, o seu animal pode correr, brincar e ter uma vida o mais “normal” possível, dentro das suas limitações.

Com este texto encerramos a saga “Hérnias discais extrusivas em cães”. Espero ter ajudado em algumas dúvidas e ajudado a compreender melhor esta patologia dos nossos animais.

Até à próxima!

Vânia Evaristo

Médica Veterinária

Hospital Referência Veterinária Montenegro

– Que animais são candidatos à cadeira de rodas? De uma forma simplista, qualquer animal é candidato. No entanto, de uma forma prática, estabelecem-se alguns requisitos: ausência de dor na coluna, capacidade de urinar sozinho, tamanho. E

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