A pseudogestação ou também denominada pseudociese/falsa gestação é uma patologia comum em fêmeas não esterilizadas que demonstram sinais de gestação, lactação e de comportamentos associados à maternidade sem existir gestação/parto associado. Esta condição é comum nas cadelas e menos frequente nas gatas e ocorre em média cerca de 2 meses após o cio (pode ocorrer entre as 6-12 semanas pós cio).

As variações hormonais que ocorrem durante o final de diestro (fase final do cio) têm um papel importante no desenvolvimento desta patologia. No caso da cadela, durante e após cada cio, os ovários produzem hormonas independentemente de ocorrer ou não uma gestação. Estas hormonas são essenciais para preparar o útero para a implantação e desenvolvimento dos embriões e manutenção da gestação. Em fêmeas gestantes estas hormonas mantêm-se em níveis elevados até ao parto. Por outro lado, quando a fêmea não fica gestante, estas hormonas sofrem um declínio nas 4-6 semanas após o cio. Nas gatas a pseudogestação é menos frequente porque a ovulação é induzida pela cópula com um macho ao contrário da cadela em que ocorre sempre ovulação (e todas as alterações hormonais associadas) independentemente de ocorrer ou não cópula.

Embora o mecanismo não seja totalmente conhecido, em algumas fêmeas a diminuição abrupta dos níveis de progesterona (hormona com papel fundamental para a gestação) associada ao aumento dos níveis de prolactina (hormona importante para a gestação e lactação) nas 4-6 semanas após o cio levam ao desenvolvimento de sinais clínicos compatíveis com um término de gestação e parto.

Os sinais clínicos mais comuns podem durar várias semanas e incluem: perda de apetite, prostração, ansiedade, aumento da glândula mamária, produção de leite ou de secreção mamária aguada/acastanhada, distensão abdominal, vómitos, diarreia e alterações comportamentais (comportamento de ninho, adopção possessiva de objectos inanimados – peluches, chinelos, brinquedos, etc.)

 

O diagnóstico da pseudogestação será realizado com base na história clinica e nos sinais clínicos associados. Deverá ser realizado um exame clinico completo para avaliação do estado de saúde do animal assim como análises de sangue (hemograma e análises bioquímicas) e de urina (urianálise) para descartar outras patologias. Aconselhamos a realização de ecografia e eventualmente radiografia abdominal para descartar uma gestação e avaliar o útero e os ovários.

Em muitos casos os sinais clínicos são leves e não requerem tratamento. No entanto, em fêmeas com sinais clínicos persistentes e moderados/severos pode ser necessário tratamento médico. Em fêmeas que apresentam aumento da glândula mamária e secreção associada será importante impedir a estimulação cíclica pela lambedura através de colocação de body ou colar isabelino. A colocação de compressas frias alternadas com compressas quentes na glândula mamária pode ajudar a reduzir a inflamação e o desconforto. Em alguns casos é necessário a utilização de terapia hormonal para inibir a estimulação mamária e a consequente produção de leite.

Em casos em que a fêmea fica com comportamento de ninho e adopta compulsivamente brinquedos, não devemos tirar esse objecto de forma abrupta para não causar ansiedade no animal. Podemos fazer passeios progressivamente mais longos, fazer mais actividades com o animal para que diminuía gradualmente a ansiedade de separação do brinquedo e possa retomar o comportamento normal.

O prognóstico da pseudogestação é bom e a maioria das fêmeas recupera em poucas semanas. No entanto, em fêmeas que apresentam pseudogestações recorrentes é aconselhável a esterilização visto que nestes animais existe maior predisposição para desenvolver tumores mamários, infecções mamárias (mastites) e infecções uterinas (piómetra).

Patricia Soares

Médica Veterinária 

Hospital Referência Veterinária Montenegro

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