A parvovirose é uma doença infecto-contagiosa causada por um vírus, o parvovírus canino, que surgiu nos anos 70 devido a uma mutação persistente do parvovírus felino (panleucopénia felina). A infecção ocorre sobretudo por via oral. O vírus começa a replicar-se no tecido linfoide tonsilar, faríngeo e intestinal, em células de multiplicação rápida como é o caso das criptas intestinais e medula óssea, dando origem a um quadro de gastroenterite hemorrágica e diminuição dos glóbulos brancos. É um vírus muito resistente conseguindo sobreviver a condições  ambientais adversas bem como à maioria dos desinfetantes, pelo que pode provocar a doença em cães que não tenham tido contacto directo com outros infetados. O vírus é excretado nas fezes em grandes quantidades, durante a infeção, e ainda que curado, estima-se que a sua eliminação persista por mais 2 semanas. Apresenta também algum tropismo pelo miocárdio (musculo cardíaco), podendo causar alterações cardíacas por vezes mortais.

Sintomas

O quadro geralmente inicia-se com anorexia e vómito progredindo rapidamente para diarreia hemorrágica abundante e desidratação grave. Pode haver febre alta ou ao contrário o animal encontrar-se hipotérmico. Alguns cães desenvolvem invaginação, septicémia e/ou coagulação intravascular disseminada, podendo todas elas levar à morte.

Diagnóstico

É realizado baseado nos sinais clínicos, estado vacinal, e alterações no hemograma. É mais frequente em cachorros ou cães jovens não vacinados ou em processo de vacinação, não obstante ocasionalmente surgirem casos em cães adultos. Embora a sintomatologia seja sugestiva, a sua confirmação deve ser sempre realizada através de um teste rápido feito no momento da consulta. Recentemente constatou-se, num estudo realizado no nosso país, que a sintomatologia e a resposta ao tratamento são piores no caso de concomitantemente estar presente um outro vírus que se denomina Corona que pode ser testado em simultâneo (Figura 1). Também a presença de parasitas no intestino e a subnutrição são fatores de agravamento do prognóstico.

Figura 1 – Teste rápido, positivo para Parvovirose e Corona vírus.

Tratamento

Baseia-se principalmente em medidas de suporte, já que não existe nenhum fármaco antivírico eficaz contra a parvovirose, pelo que tem de ser o sistema imunitário a eliminar o vírus. O pilar do tratamento é a fluidoterapia para correção da desidratação (calculando as perdas massivas que ocorrem pelo vómito e diarreia), das alterações eletrolíticas e da hipoglicémia. Quando a perda de proteínas pela diarreia é grande o suficiente para causar diminuição das proteínas no sangue, é por vezes necessário recorrer a fluidos mais específicos denominados coloides e que têm a grande desvantagem de serem muito dispendiosos. Hoje sabe-se que os animais com doenças gastrointestinais beneficiam muito da introdução de alimentos o mais precocemente possível, o que nalguns casos tem de ser realizado através de sondas de alimentação. Para que isto seja possível é preciso controlar o vómito com fármacos anti-eméticos e protetores gástricos. A antibioterapia é também importante de forma a diminuir a quantidade de bactérias e suas toxinas circulantes. O interferão ómega felino demonstrou em 2 estudos que reduz a morbilidade e mortalidade associada à parvovirose canina, não obstante, as experiências clínicas ainda serem escassas. Contudo, o seu elevado preço limita a sua utilização.

Prognóstico

É em geral bom em cães hospitalizados numa fase inicial da doença, que recebem tratamento intensivo. Contudo, apesar de todos os esforços e utilização de todas as armas que existem ao nosso dispor, os estudos mostram que entre 10 e 20% dos cães com parvovirose morrem devido a septicémia. Têm mau prognóstico os cães internados tardiamente ou que não têm acesso a tratamento intensivo. Nestes casos a percentagem de mortalidade pode ultrapassar os 50%. Em qualquer dos casos, o prognóstico está dependente da gravidade clínica, das co-morbilidades, do estado vacinal, da idade, da condição corporal e da raça do animal.

Prevenção

A melhor medida preventiva, por ser a única eficaz é a vacinação. Deve ser iniciada entre as 6 e as 8 semanas e terminar apenas depois das 16 semanas. Paralelamente a desinfeção do ambiente e a proteção do animal durante o período da primo vacinação são também importantes.


Rodrigo Niza

Mestrado Integrado em Medicina Veterinária em 2015 na Universidade de Évora com estágio na Universidad CEU Cardenal Herrera e Hospital Veterinário do Restelo. A frequentar a pós-graduação General Practitioner in Small Animal Medicine. Integra a equipa da Azevet Clínica Veterinária.

Please follow and like us: