O que é?

O Ducto Arterioso Persistente (DAP) é uma alteração congénita, que surge quando o encerramento do ducto arterioso (DA) do feto não ocorre.

Durante o desenvolvimento fetal, o ducto arterioso é um vaso que permite fazer o bypass dos pulmões, ou seja, permite o desvio da circulação sanguínea pulmonar para a circulação sistémica enquanto os pulmões não são funcionais. Aquando o nascimento, vários fatores contribuem para o encerramento do DA.  Estes incluem a diminuição da resistência da vasculatura pulmonar, a diminuição dos níveis de prostaglandinas vasodilatadoras e o aumento da concentração de oxigénio. Quando o encerramento não ocorre ou é inadequado designa-se por ducto arterioso persistente (DAP) (Figura 1).

Figura 1
– Representação anatómica da localização do ducto arterioso persistente. É possível observar a aorta (DAo) em cima e a artéria pulmonar (PA) ventralmente. No meio está representado o ducto arteriosos persistente (PDA) com uma conformação afunilada. Adaptado de Kittleson MD & Kienle RD, 1998.

Patofisiologia

As consequências de um DAP dependem do diâmetro deste e da resistência vascular pulmonar. A pressão do sangue na aorta é maior do que na artéria pulmonar, logo o fluxo do shunt é normalmente esquerdo-direito. Isto resulta numa sobrecarga de volume do lado esquerdo, com hipertrofia ventricular, disfunção sistólica e frequentemente dilatação atrial esquerda. À medida que o ventrículo esquerdo dilata, pode ocorrer um aumento do diâmetro do anel da válvula mitral conduzindo a uma regurgitação funcional.

A sobrecarga de volume na circulação pulmonar pode conduzir a hipertensão pulmonar. Assim sendo, ocorrem alterações irreversíveis nos vasos pulmonares aumentando a resistência e pressão pulmonar conduzindo a hipertrofia concêntrica do ventrículo direito. Quando a pressão do lado direito excede a do lado esquerdo o fluxo de sangue pelo shunt reverte, o que resulta na incorporação de sangue não oxigenado na circulação sistémica. Os shunts direito-esquerdos são menos comuns, representando cerca de 3% dos pacientes com DAP.

Diagnóstico

Identificação do animal

O DAP pode ser observado em cães e gatos, com uma maior frequência em cães.

Raças predispostas ou com risco superior incluem o Lulu da Pomerânia, o Cocker Spaniel Americano, o Bichon Frisé, o Pastor Alemão, o Labrador Retriever, o Chihuahua, o Maltês e o Yorkshire Terrier. Sabe-se que no caniche Miniatura esta doença é hereditária.

Sinais clínicos

Normalmente, o DAP é detetado nas primeiras consultas de desparasitação e vacinação quando é auscultado um sopro contínuo típico, que lembra um motor.

Os animais podem também exibir sinais como intolerância ao exercício, tosse, síncopes e dificuldades respiratórias.

Ecocardiografia

A ecocardiografia é o exame complementar que confirma o diagnóstico (Figura 4).

Poder-se-á observar hipertrofia excêntrica do ventrículo esquerdo, disfunção sistólica e aumento do átrio esquerdo. A gravidade da sobrecarga de volume do ventrículo esquerdo correlaciona-se com o tamanho do DAP. A artéria pulmonar principal poderá estar dilatada desde a válvula pulmonar até à sua bifurcação.

Figura 2
– Ecocardiografia transtorácica onde é possível visualizar o DAP (seta vermelha). 

O doppler de cor mostra um fluxo turbulento na artéria pulmonar com um fluxo contínuo na localização do DAP (Figuras 2 e 3).

Figura 3 – Ecocardiografia transtorácica. Presença de fluxo turbulento visivel com o doppler de cor.
Figura 4 – Ecocardiografia transtorácica. É possivel visualizar um fluxo continuo esquerdo direito com recurso ao doppler espectral

Tratamento e Prognóstico

Atualmente, estão disponíveis duas abordagens para a resolução do DAP, ambas com elevadas taxas de sucesso:

  • Cirurgia via toracotomia
  • Oclusão do DAP por cirurgia minimamente invasiva

A toracotomia consiste em encerrar o defeito congénito, colocando ligaduras cirúrgicas no ducto arterioso, abrindo a cavidade torácica para aceder ao coração.

Na oclusão por cateterismo é usado um dispositivo que se coloca no lúmen do DAP, causando o encerramento completo deste. Para este procedimento não é necessária a realização de toracotomia.

Oclusão do DAP por cateterismo

O acesso é feito através da artéria femoral e é usado um dispositivo denominado Amplatz® Canine Duct Occluder (ACDO) (Figuras 4 e 7). Trata-se de um dispositivo expansível, construído a partir de malha de nitinol, onde uma pequena cintura separa um disco plano na porção distal de um disco em forma de taça na porção proximal.

Figura 5 – Amplatz® Canine Duct Occluder (ACDO)

Para a realização do procedimento é necessário equipamento adequado, um fluoroscópio e uma equipa especializada.

Em primeiro lugar é localizada a artéria femoral. Após o seu isolamento é inserido um cateter que é avançado com o auxílio de um fio guia até à aorta torácica, atravessando o ducto até à artéria pulmonar (Figura 6).

Figura 6 – Colocação do Amplatz Canine Duct Occluder
A – Exteriorização do disco distal na artéria pulmonar
B – Exteriorização do disco proximal na ampola do ducto

A oclusão através de cirurgia minimamente invasiva tem como vantagens a diminuição do tempo de hospitalização, diminuição da dor e de complicações graves. Porém, não é possível a sua realização em animais muito pequenos (menos de 2,3 kg) e em certas conformações de ductos.

Figura 7 – Radiografia Latero – lateral de um cão depois do procedimento por cateterismo

Quando realizada em tempo útil, a oclusão do DAP é curativa e resulta na remodelação cardíaca inversa a longo prazo, melhorando a esperança média de vida na maioria dos cães

O diagnóstico desta doença congénita deve ser feito o mais cedo possível, visto que se trata de uma patologia passível de correção, sem a qual tende a progredir ao longo do tempo, associando-se um mau prognóstico.

Luis Lobo

Médico Veterinário – Hospital Veterinário do Porto

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