A mastite consiste na inflamação da glândula mamária frequentemente associada a infeção bacteriana. Esta patologia ocorre sobretudo em cadelas durante o pós-parto e menos frequentemente em gatas na mesma condição. No entanto, também pode ocorrer em cadelas que desenvolvam pseudogestação com produção de leite associada (raro nas gatas).

Os fatores de risco associados ao desenvolvimento de mastite incluem situações traumáticas para a glândula mamária como o trauma infligido pelos próprios cachorros durante a amamentação, a galactoestase (distensão da glândula mamária com obstrução da saída do leite), infeções sistémicas (em que as bactérias podem migrar através da circulação sanguínea até à glândula mamária), fracas condições de higiene, conformação corporal (cadelas com membros muito curtos têm maior probabilidade de sofrerem trauma da glândula mamária).

            Durante a lactação no pós-parto e na pseudogestação pode ocorrer infeção bacteriana pela entrada das bactérias que existem na pele através dos ductos mamários e lesões localizadas nos mamilos e na superfície mamária. As principais bactérias envolvidas na mastite incluem a Escherichia coliStaphylococcus spp., Streptococcus spp., Enterococcus spp.. Embora seja menos frequente também pode ocorrer infeção por fungos (Blastomycosis, Mycobacteriosis, entre outros).

Quais os sinais clínicos associados?

            A mastite pode ser aguda ou crónica, pode ser localizada em apenas uma glândula mamária ou afetar várias em simultâneo. Esta é uma patologia extremamente dolorosa e grave, podendo a fêmea apresentar-se sem sinais clínicos ou, na presença de infeção bacteriana secundária ficar gravemente doente e, no caso de as bactérias entrarem na circulação sanguínea pode ocorrer infeção sistémica (septicémia) colocando em risco a vida da fêmea.

            Em alguns casos os primeiros sinais são observados na ninhada e não na fêmea. Nas ninhadas que apresentam atraso no crescimento, pouca vitalidade e vocalizações frequentes devemos sempre avaliar a mãe, a glândula mamária e a qualidade do leite. Nas mastites o leite perde qualidade nutricional podendo tornar-se uma fonte de infeção para a ninhada e, por outro lado a mãe, devido ao desconforto, pode tornar-se negligente e evitar amamentar.

            Nas mastites agudas as glândulas mamárias afetadas estão aumentadas, dolorosas, quentes e tumefactas e a secreção mamária que deveria ser leite torna-se uma secreção amarela-acastanhada, hemorrágica e muitas vezes purulenta. A fêmea pode apresentar prostração, perda de apetite e rejeitar a ninhada. Em alguns casos pode ocorrer a formação de abcessos na glândula mamária com necrose/gangrena e morte dos tecidos envolventes (mastite gangrenosa). Em situações mais graves com envolvimento sistémico a fêmea pode apresentar febre, septicémia, choque e, na ausência de tratamento, risco de morte.

As mastites crónicas são muitas vezes subclínicas com desenvolvimento insidioso onde o único sinal pode ser o fraco desenvolvimento da ninhada.

Como diagnosticar uma mastite?

Se suspeita que a sua cadela/gata apresenta sinais clínicos compatíveis com mastite deverá de imediato dirigir-se ao seu Médico Veterinário habitual para um diagnóstico precoce.

O Médico Veterinário com base na história clínica e sinais clínicos poderá suspeitar de mastite, mas deverá sempre ser necessário a realização de análises de sangue, urina e ecografia abdominal para descartar outras doenças relacionadas (por exemplo metrites – infeções uterinas, infeções urinárias, etc.) – isto é extremamente importante em fêmeas com sinais sistémicos associados. Em animais com evidencia de infeção sistémica e severamente doentes pode ser necessário a realização de radiografias torácicas para avaliar a possibilidade de pneumonia, abcessos ou metástases pulmonares de tumores mamários (entre outros).

Idealmente deve ser feita citologia (avaliação das células) da secreção mamária para confirmar mastite e descartar outras causas, tais como tumores mamários. A cultura bacteriana da secreção mamária é de extrema importância para determinar se há infeção bacteriana secundária e qual o antibiótico de eleição a utilizar, tendo em conta que muitas das possíveis bactérias envolvidas apresentam diversas resistências aos antibióticos atualmente.

A minha cadela/gata tem mastite – E agora? Como posso tratar?

O tratamento da mastite deverá ser adaptado a estado clínico da fêmea. Nas mastites asséticas (sem infeção bacteriana associada) onde apenas temos sinais de inflamação da glândula mamária, mas a fêmea está bem, ativa, sem sinais clínicos e a secreção mamária é normal devemos colocar compressas mornas 4-6 vezes por dia na glândula mamária, massajar e estimular a amamentação da ninhada para ajudar a descida do leite. A secreção mamária deve ser monitorizada várias vezes por dia assim como a mãe e a ninhada. Se a mastite asséptica ocorre durante o desmame deveremos evitar a estimulação da glândula mamária, reduzir a ingestão de comida e água transitoriamente e, em alguns casos, pode ser necessário recorrer a hormonas para terminar a produção de leite.

Nos casos de mastites sépticas em que há infeção bacteriana secundária o tratamento inclui antibióticos de largo espectro (idealmente baseados na cultura bacteriana), analgésico para controlo de dor, anti-inflamatório, o tratamento local com calor e massagens 4-6 vezes por dia para ajudar a circulação e drenagem da glândula mamária afetada. As fêmeas severamente doentes e com envolvimento sistémico, pelo risco de choque e septicémia, devem ser hospitalizadas para realização de fluidoterapia, antibioterapia e analgesia intravenosa para aumentar a probabilidade de sobrevivência.

Em casos de mastites gangrenosas e/ou abcessos mamários é necessário a sedação da fêmea para desbridamento e limpeza dos tecidos necrosados e drenagem dos abcessos associados. Em casos severos pode ser necessário a realização de mastectomia – remoção da glândula mamária afetada. Nestas situações graves, tal como já foi referido anteriormente, devemos recorrer a terapia hormonal (por ex. com cabergolina, metergolina) para interromper a produção de leite e facilitar a recuperação da glândula mamária.

Durante este período de tratamento da mãe, os cuidados da ninhada relativamente à alimentação, manutenção da temperatura corporal, higiene e estimulação anogenital (para urinar/defecar) devem ser realizados pelo tutor, em parceria com a mãe, até assegurar a sua total independência.  O prognóstico de recuperação de mastites é bom se o diagnóstico for realizado precocemente.

Como posso prevenir?

            Durante a lactação as condições de higiene da caixa de parto devem ser reforçadas para minimizar a probabilidade de a mãe em lactação entrar em contacto com bactérias que possam causar mastite. Algumas medidas simples podem marcar a diferença, tais como: a troca regular de mantas da caixa de parto; a monitorização da ninhada e da mãe para identificar qualquer lesão na glândula mamária; avaliar diariamente a condição geral dos cachorros; garantir que a mãe não urina/defeca na caixa de parto e proceder à limpeza da glândula mamária regularmente.

Patricia Soares

Médica Veterinária

Hospital de Referência Veterinária Montenegro

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