A hiperplasia fibroadenomatosa mamária felina (HFMF) é uma doença benigna que afeta sobretudo gatas jovens não esterilizadas, geralmente com menos de 1-2 anos de idade. Caracteriza-se por um crescimento rápido e anormal do tecido da glândula mamária e ocorre mais frequentemente em gatas que tomam contraceptivos à base de progestagénios, mas também pode ocorrer em gatas após o primeiro e segundo cio ou durante a gestação. Nos gatos machos e em gatas esterilizadas e geriátricas pode ocorrer, mas é menos comum.

            A presença de massas na glândula mamária de uma gata é sempre uma situação preocupante visto que, nesta espécie, cerca de 80% dos tumores mamários são malignos e com elevada mortalidade associada. Em situações de crescimento anormal da glândula mamária é de extrema importância procurar um Médico Veterinário e obter um diagnóstico.

QUAIS AS CAUSAS?

             Vários estudos indicam que esta doença tem uma base hormonal, principalmente devido à influência da progesterona. Níveis elevados de progesterona seja por ingestão em casos de tratamentos hormonais (exógena) ou por variações hormonais do próprio organismo (endógena) – por exemplo em casos de ovulação espontânea sem gestação, pseudogestação (falsa gravidez), gestação ou síndrome do ovário remanescente – pode desencadear a HFMF.       Após a esterilização pode ocorrer, de forma transitória, HFMF por desregulação da progesterona, da hormona de crescimento e da prolactina (hormona associada à lactação). Nestes casos, níveis elevados de progesterona associados a uma maior quantidade de receptores para esta hormona presentes no tecido mamário permite que esta doença se desenvolva.

 

QUAIS OS SINAIS CLÍNICOS?

            Esta doença tem um desenvolvimento rápido em 2-5 semanas onde ocorre um crescimento abrupto da glândula mamária com aparência de nódulos/massas de consistência firme. Na maioria dos casos não apresenta secreção mamária associada exceto se a gata estiver gestante, em período de lactação, pseudogestação ou se ocorrer mastite secundária (infeção da glândula mamária). Pode afetar 1 ou 2 glândulas mamárias ou ambas as cadeias mamárias. Se ocorrer uma hipertrofia mamária severa, ocorre inflamação e edema dos tecidos, a pele fica fragilizada e podem ocorrer ulcerações e necrose da glândula mamária (morte dos tecidos). Neste caso, a HFMF torna-se dolorosa para a gata e predispõe ao desenvolvimento de infeções bacterianas secundárias e, em casos severos, infeções sistémicas (septicémia) com risco de morte associado.

Para além destes sinais clínicos a gata também pode ficar mais prostrada, perder apetite, perder peso e apresentar febre.

Apesar do rápido desenvolvimento da HFMF, as lesões mamárias podem ser reversíveis após a redução da progesterona endógena ou exógena. Este processo de recuperação da glândula mamária é, no entanto, mais lento.

           

COMO OBTER UM DIAGNÓSTICO?

O diagnóstico de HFMF pode ser um desafio pois, apesar de ser uma doença benigna, a sua rápida evolução, a sua aparência volumosa e por vezes ulcerada/necrosada pode mimetizar alguns tumores mamários malignos, sobretudo quando afeta apenas uma glândula mamária.

O diagnóstico deve ser baseado na história clínica do animal (idade, estado de esterilização, terapia recente com contraceptivos, presença de cio recente, etc.) e nos sinais clínicos associados. Por outro lado, o doseamento de progesterona sanguínea pode apoiar a suspeita clínica. Na presença de secreção mamária será importante a realização de citologia e cultura desta secreção para avaliar o tipo de células (células inflamatórias, células tumorais, etc.) e descartar possíveis infeções associadas.

A ecografia abdominal e mamária deverá ser realizada para avaliar o tecido mamário, o útero e os ovários e descartar uma possível gestação.

Na presença de nódulos/massas mamárias únicas, exuberantes ou pouco responsivas aos tratamentos é aconselhável a realização de biópsias ou a excisão da glândula mamária (mastectomia) e respetiva análise histopatológica dos tecidos afetados para descartar os principais diagnósticos diferencias possíveis, tais como tumores mamários e mastite (inflamação/infeção mamária), tal como referido anteriormente.

 

QUAIS AS OPÇÕES DE TRATAMENTO POSSÍVEIS?

Tendo em conta que a HFMF é uma doença benigna associada a níveis elevados de progesterona, o tratamento médico pode ser a primeira opção na maioria dos casos. O tratamento médico de eleição é com antiprogestagénios (por exemplo com o aglepristone) que bloqueiam os receptores da progesterona e reduzem a sua ação. O protocolo de tratamento e a sua duração é estabelecido mediante a severidade da doença e a resposta ao tratamento. É fundamental a exclusão de uma gestação antes de iniciar o tratamento pelo risco de aborto associado.

A interrupção de terapia hormonal com progestagénios pode permitir, por si só, a remissão dos sinais clínicos em animais que tomam estes contraceptivos. Os casos de HFMF após a esterilização, são geralmente transitórios e autolimitantes. No entanto, se o animal evidenciar desconforto podemos iniciar terapia médica para uma recuperação mais rápida.

            Em casos severos com ulceração e necrose da cadeia mamária e, em casos refractários ao tratamento médico, pode ser necessário realizar a excisão cirúrgica da cadeia mamária afetada (mastectomia) e ovariohisterectomia (remoção dos ovários e útero). A ovariohisterectomia induz a remissão da glândula mamária e previne a recidiva da HFMF.

Atualmente, com as opções médicas disponíveis, a mastectomia deve ser evitada numa primeira abordagem na HFMF na ausência de ulceração e necrose mamária. Isto porque esta é uma cirurgia mais agressiva onde há manipulação do tecido mamário que está extremamente inflamado/reactivo. Após a recuperação da cadeia mamária com tratamento médico, a ovariohisterectomia pode ser uma opção, sobretudo em gatas não reprodutoras ou em gatas que fazem contraceptivos para prevenção de cio.

A possibilidade de recidiva de HFMF em gatas que permanecem inteiras (não esterilizadas) é ainda desconhecida e controversa. Não há evidências que uma gata possa desenvolver HFMF recorrente em todos os cios/gestação nem são conhecidas formas de evitar o seu desenvolvimento quando a causa é endógena. No entanto, tendo em conta os fatores associados ao seu desenvolvimento, isso pode acontecer. Os tutores, sobretudo de gatas reprodutoras, devem estar informados e cientes que pode ocorrer HFMF em futuros cios e gestações. Isto pode ser um problema grave quando a gata desenvolve uma HFMF severa com ulceração/necrose e mastite secundária durante a gestação tendo em conta que as opções terapêuticas são incompatíveis com a manutenção da gestação.

Patricia Soares

Médica Veterinária

Hospital de Referência Veterinária Montenegro

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