Esofagite (Figura 1) é a inflamação do esófago, tubo muscular que transporta os alimentos desde a boca até ao estômago. Quando presente é causa de dor e dificuldade na deglutição. Embora a esofagite em gatos seja frequente, é muitas vezes não diagnosticada, por ser pouco específica e com apresentação clinica subtil. É uma alteração que pode conduzir a diminuição do diâmetro esofágico (estenose), secundária à inflamação e resultar em obstrução à passagem dos alimentos. Uma vez formada a estenose, é necessário tratar com procedimentos invasivos que a consigam reverter.

 
Fig 1. Imagem de esofagite obtida por endoscopia

Etiologia

A causa mais comum de esofagite é o refluxo gástrico, que em contacto com a mucosa esofágica acaba por danificá-la. O refluxo pode ocorrer de várias formas. Uma das mais frequentes é quando o animal é submetido a uma anestesia geral, existindo evidência de que apenas 20 minutos de contacto entre o ácido libertado pelo estômago e a mucosa esofágica são suficientes para provocar esofagite. Pode também ocorrer em uma hérnia de hiato, onde parte do estômago se encontra na cavidade torácica e a força exercida sobre o esófago é menor, permitindo passagem de conteúdo estomacal para o esófago. Também a utilização de determinados medicamentos como as tetraciclinas, quando utilizados sob a forma de comprimidos, podem provocar esofagite. Quando são administrados sem uma quantidade de água adequada, podem aderir à mucosa esofágica, devendo os donos ser advertidos aquando da sua utilização. Outra causa possível é por trauma aplicado no esófago por ingestão de corpos estranhos.

Sinais clínicos e diagnóstico

A esofagite é uma alteração que se caracteriza pela subtileza dos seus sintomas, sendo todos eles inespecíficos. A sua presença deve ser ponderada quando o animal apresenta vómito/regurgitação, inapetência e hipersalivação, aumentando a probabilidade de estar presente no caso de o animal ter história de anestesia geral, uso de antibióticos (particularmente tetraciclinas) ou possibilidade de corpo estranho. As análises sanguíneas estão normais exceto se a inflamação associada for muito exuberante. Um estudo radiológico pode originar suspeitas por acumulação de ar no esófago. Atualmente a utilização de endoscopia é o método mais fiável para chegar a um diagnóstico, permitindo a visualização de qualquer inflamação ou lesão presente e ainda a possibilidade de colher biópsias. De acrescentar que os tumores de esófago são extremamente raros em gatos.

Tratamento

A esofagite deve ser tratada o mais cedo possível, uma vez que a cicatrização promovida pelo organismo leva a estenose do esófago. O tratamento baseia-se na diminuição do refluxo aumentando a velocidade de esvaziamento do estômago, reduzindo a quantidade de ácido produzido e a sua acidez. Poderá existir a necessidade da utilização de antibióticos se ocorrer infeção secundária à inflamação. Em casos em que a esofagite está presente há muito tempo poderá estar aconselhada a colocação de um tubo de alimentação, de forma a deixar repousar o esófago. Se a esofagite for secundária a uma hérnia de hiato, a resolução cirúrgica é resolutiva.

Estenose do esófago (Figura 2)

Uma vez que a esofagite é de difícil diagnóstico, bastantes casos terminam em estenose e o seu tratamento pode ser longo e de custo elevado. Nesta fase é possível que o animal apenas tolere líquidos e comida húmida. A utilização de um contraste associado a um exame complementar de imagem pode ser suficiente para se chegar a um diagnóstico. Em gatos bebés que começam por regurgitar a comida sólida, a presença de uma anomalia vascular deve ser suspeitada. O esófago fica “abraçado” pelas grandes artérias torácicas e o diâmetro do mesmo torna-se menor, sendo visível no endoscópio que o seu interior está comprimido externamente. Se for esse o caso o animal deve fazer um exame complementar de imagem avançada como TAC ou ressonância magnética.

Fig 2 – Imagem de estenose esofágica obtida por endoscopia

Tratamento da estenose

A remoção da obstrução é o único tratamento quando os sinais clínicos persistem. A opção terapêutica mais utilizada passa pelo uso de um balão dilatador (Figura 3). O recurso a um balão dilatador enquanto se utiliza o endoscópio é a escolha mais segura e permite a visualização do local exato da lesão. O processo irá provocar a rotura da mucosa esofágica e expor a submucosa (camada tecidular que se encontra abaixo da mucosa). Embora isto provoque um novo processo inflamatório (Figura 4), este pode ser controlado através de medicação. A resolução do problema requer no entanto múltiplas dilatações. Outra opção é a ressecção completa da porção esofágica que apresenta a estenose mas nem sempre é bem-sucedida, sendo a probabilidade de deiscência de sutura alta, devido à baixa vascularização do esófago. Existe também o risco da estenose voltar a formar-se após a cirurgia.

Fig 3 – Ilustração de como funciona o balão dilatador por endoscopia
fig 4 – Imagem de estenose esofágica obtida por endoscopia, imediatamente após tratamento com recurso a balão dilatador.

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