Voltámos ao Maravilhoso Mundo Felino para falar de doenças cardíacas. Sabia que há raças de gatos mais predispostas a ter problemas cardíacos? Sabia que a hipertensão, tal como nos humanos, pode causar problemas no coração? Descubra tudo connosco.

 

O que é uma cardiomiopatia?

Uma cardiomiopatia é o nome dado a qualquer doença que afete o músculo cardíaco. Podemos afirmar que entre todas as doenças cardíacas é a mais comummente observada em gatos e que é a principal causa de insuficiência cardíaca felina. As patologias que afetam as válvulas cardíacas são menos comuns, ao contrário do que acontece nos cães e nos humanos.

As cardiomiopatias são classificadas de acordo com as alterações provocadas na estrutura e na função do músculo cardíaco. A cardiomiopatia hipertrófica é a forma mais comum de doença cardíaca em gatos e ocorre quando há um aumento da espessura muscular do coração. Este aumento de espessura do músculo cardíaco vai ocupar mais “espaço” dentro do coração e consequentemente o volume de sangue que pode entrar nas câmaras cardíacas diminui. Além disso, esta hipertrofia da parede muscular faz com que o coração não seja tão “maleável”, impedindo-o de relaxar (diástole cardíaca) adequadamente entre as contrações cardíacas (sístole cardíaca). Estas alterações podem levar a uma insuficiência cardíaca, à ocorrência de tromboembolismo e ocasionalmente morte súbita.

A cardiomiopatia dilatada, por sua vez, ocorre quando a parede muscular do coração fica mais fina do que o normal, o coração aumenta e o músculo cardíaco não consegue contrair de forma eficaz. No final da década de 80 este tipo de insuficiência cardíaca foi relacionada com a deficiência em taurina na alimentação dos gatos. Desde essa altura que a alimentação comercial de gato é suplementada com este aminoácido essencial, fator que diminuiu muito a incidência desta doença. É muito importante ter isto em consideração, principalmente em casas onde os gatos coabitam com cães. Todos sabemos que para o gato por vezes “o fruto proibido é o mais apetecido” e pode preferir a comida do seu amigo cão em vez da sua. Não se esqueça que a alimentação do cão não é suplementada com taurina e que a longo prazo pode ter consequências na saúde do gato.

Quer uma dica Alma Felina?

Tem um gato que insiste em comer a comida do seu cão ou vice-versa? Não se preocupe, nós temos a solução! Existem comedouros que podem ser programados para abrir com o microchip de identificação eletrónica do seu animal. Deste modo, o comedouro programado com o microchip do seu cão só irá abrir quando o seu cão se aproximar dele, estando o acesso vedado ao seu gato. Também sabemos que os cães adoram a comida de gato mas desta maneira vai conseguir ter a comida do seu gato sempre à disposição.

Os gatos e o vegetarianismo

O gato é incapaz de sintetizar muitos aminoácidos essenciais e só consegue suprir essas necessidades com o tecido muscular das suas presas. Por esta razão, o gato é um animal carnívoro obrigatório e não pode ter um regime de alimentação vegetariano (mesmo que sejam dietas comerciais vegetarianas para gatos!). Nos últimos anos a cardiomiopatia dilatada tem sido mais comummente diagnosticada em gatos por um regime alimentar inadequado. Informe-se com o seu médico veterinário assistente sobre a alimentação mais adequada para o seu gato.

Quais são as principais causas de cardiomiopatia em gatos?

A causa subjacente à doença cardíaca pode ser desconhecida, mas há algumas doenças que podem potenciar o seu aparecimento como é o caso do hipertiroidismo, a hipertensão arterial, neoplasias (ex. linfoma), tóxicos (ex. medicamentos com efeitos secundários sobre o coração), entre outros.

A hipertensão arterial é muito frequente em gatos, principalmente em gatos geriátricos. Tal como nos humanos pode ser uma doença silenciosa durante largos períodos de tempo e, ao passar despercebida, causar lesões em vários órgãos importantes (ex. rins, coração, retina ocular, etc.). A pressão sanguínea elevada é a causa mais comum de cegueira repentina em gatos.

Afinal o que os olhos não veem… o coração sente!

Numa fase inicial de doença cardíaca os gatos não mostram sinais e podem parecer completamente normais. Tal como falámosanteriormente no artigo “Detetive: substantivo masculino; pessoa que-partilha a vida com gatos e cuja função é investigar, obter informações e provas difíceis de encontrar!”, a condição natural de presa faz com que o gato não demonstre sinais de vulnerabilidade, que consiga camuflar os sinais de doença… e, infelizmente na maioria das vezes, quando demonstra sinais clínicos mais evidentes pode ser tarde de mais. Ao longo destes meses de descoberta do Maravilhoso Mundo Felino temos constatado a importância de todos os gatos serem consultados pelo menos uma vez ao ano e, no caso de gatos geriátricos, mais frequentemente.

Alguns sinais de doença cardíaca podem ser detetados pelo médico veterinário na consulta anual de rotina, tais como a presença de um sopro cardíaco, ritmo de galope, arritmia cardíaca, alterações na frequência cardíaca, entre outros. O aumento de peso, dormir mais do que o habitual, brincar menos, são sinais mais vagos mas que podem indicar uma diminuição da capacidade de exercício. Ainda sim, ao contrário do provérbio “o que os olhos não veem, coração que não sente”, na maioria dos gatos as alterações cardíacas são assintomáticas e impercetíveis ao exame clínico, principalmente em estádios iniciais de doença como já referido anteriormente. A realização de uma avaliação cardíaca periódica é, por isso, de extrema importância para diagnosticar precocemente a doença cardíaca em gatos. A etapa da vida em que deve ser realizada bem como a frequência da sua realização vai depender não só da raça e da idade do gato, mas também da existência de doenças que possam afetar a função cardíaca. Para ajudar no diagnóstico de doença cardíaca pode ser necessária a realização de análises sanguíneas, radiografias, ecocardiografia, electrocardiograma, medição da pressão arterial, entre outros. A ecocardiografia é um exame indolor que pode ser realizado na maioria dos gatos sem sedação ou anestesia, sendo muito útil para diagnosticar patologia cardíaca em gatos.

E quando passa a ser tarde demais?

Na maioria das vezes os gatos manifestam sinais clínicos de doença cardíaca em fases muito avançadas. As apresentações mais frequentes de insuficiência cardíaca felina em urgência são a dificuldade respiratória e o aumento da frequência respiratória associadas a edema pulmonar ou derrame pleural. Além das dificuldades respiratórias, muitas vezes agravadas por uma situação de stress ou pico de esforço, os gatos também podem aparecer em urgência com as extremidades frias (ex. orelhas, almofadas plantares) e mucosas pálidas ou cianóticas devido à má circulação sanguínea. Por vezes, infelizmente não tão poucas como gostaríamos, chegam-nos gatos a consulta com paralisia súbita dos membros pélvicos, sem conseguirem movimentar as patinhas traseiras e com um grau de dor muito intenso. Esta apresentação clínica, secundária a um tromboembolismo aórtico, ocorre normalmente em gatos com cardiomiopatia hipertrófica não diagnosticada e não controlada. O coágulo sanguíneo (trombo) forma-se devido ao fluxo de sangue anormal no coração e ao soltar-se é transportado pelo sangue que sai do coração, obstruindo os vasos sanguíneos que fornecem sangue aos membros pélvicos. Nestas situações o prognóstico clínico é muito reservado.

Doenças cardíacas felinas e genética

Acredita-se que, tal como acontece em humanos com cardiomiopatia hipertrófica, alguns defeitos genéticos podem contribuir para o desenvolvimento de cardiomiopatias felinas. Mutações genéticas específicas já foram identificadas em algumas raças, como é o caso dos gatos Maine Coon e Ragdool. No entanto, a relação entre a presença destas alterações genéticas e o desenvolvimento de cardiomiopatia não é linear. Embora a presença deste gene aumente o risco de doença, nem todos os gatos desenvolvem cardiomiopatia hipertrófica. Do mesmo modo, nem todos os gatos que desenvolvem cardiomiopatia hipertrófica têm estas alterações genéticas presentes. É provável que outros fatores ambientais e outros genes ainda não identificados possam influenciar em conjunto para o desenvolvimento da doença.

Nestas raças de gatos é aconselhada a realização de ecocardiografia periódica para despiste da presença de cardiomiopatia hipertrófica. Além da ecocardiografia, a realização de análises genéticas podem ser necessárias, principalmente em gatos usados para reprodução. Qualquer gato com cardiomiopatia hipertrófica diagnosticado através de ecocardiografia ou que seja portador da mutação genética, não deve ser usado como reprodutor para não perpetuar a doença. Como a cardiomiopatia hipertrófica pode ocorrer em qualquer idade, um único exame ecocardiográfico não garante que o gato permaneça livre de doença ao longo da vida.

Atualmente decorrem estudos à procura de novas mutações genéticas que possam contribuir para a cardiomiopatia hipertrófica, não só nestas duas raças de gatos, mas também nos Bosques da Noruega, Sphinx, Scottish Fold, British Shorthair, onde a prevalência desta doença cardíaca tem sido comummente diagnosticada e reportada.

Quer uma dica Alma Felina?

Se está a pensar adquirir um gato de raça informe-se com o seu médico veterinário assistente sobre os cuidados a ter em conta na hora de tomada de decisão. Além disso, não se esqueça que todos os gatos usados como reprodutores ou gatos de raças com maior incidência de cardiomiopatia hipertrófica devem realizar uma avaliação cardíaca periódica. Todos os gatos séniores, independentemente da raça, devem realizar uma consulta anual de rotina que inclua, além de um exame clínico minucioso, a realização de análises de sangue, uma análise de urina, avaliação da função da tiróide, uma medição da pressão arterial, uma avaliação cardíaca e uma avaliação ortopédica, mesmo que aparentemente esteja tudo normal. Com o diagnóstico precoce de doença cardíaca, o tratamento pode ajudar a retardar a sua progressão.

Por hoje terminamos por aqui, com a certeza que “Assim são os gatos: amam em silêncio, mas com todo o coração!”

Regressaremos para falar de uma questão muito atual em medicina felina: “Alimentação húmida ou alimentação seca?” Até lá, bons momentos felinos!

Joana Valente 

Médica Veterinária

Grupo Alma Veterinária – Hospital Veterinário

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