Portugal sempre foi reconhecido pela qualidade dos seus cavalos e pela destreza dos seus cavaleiros. Mas de onde vem essa fama? De onde surgiu o cavalo Lusitano de que todos (ou quase todos) ouvimos falar e que tanto interesse desperta atualmente no mundo inteiro?

Baseado no artigo – LUSITANO UM CAVALO ANCESTRAL –  apresentado por nós durante as comemorações do centenário da Universidade de Mendel no passado mês de novembro de 2019 em Brno Rep. Checa, vou convidar-vos   para uma viagem no tempo com a finalidade de tentar desvendar um pouco da história do Cavalo Puro Sangue Lusitano. Tudo leva a crer que o sul da Península Ibérica tenha sido poupado aos efeitos da ultima glaciação que ocorreu há cerca de 15.000 anos, (Fig.1) esta particularidade permitiu que nos seus vales férteis sobrevivessem e se multiplicassem algumas manadas de cavalos primitivos praticamente livres de influencias exteriores e facilitou ainda a sua precoce domesticação.  


Fig.1 – Europa na ultima era glaciar

Achados arqueológicas sugerem que já no periodo Neolitico (4.000AC) já as tribos nativas da Peninsula utilizavam  cavalos na guerra. O que faz do cavalo da Península Ibérica o cavalo de sela mais antigo do mundo

 

Pinturas rupestres e gravuras nas rochas datadas num período entre os 30.000 e os 13.000 anos AC encontradas no Parque Arqueológico do Vale do Coa, nas grutas do Escoural em Évora e nas paredes da Cueva La Pileta  nas imediações de Ronda na Andaluzia, representam cavalos com um perfil subconvexo e pescoços arqueados, características muito semelhantes as dos cavalos da Raça Sorraia ainda  existentes nos nossos dias e que se acredita estarem na base do atual cavalo Lusitano.

OS SORRAIAS

Os Sorraias são uma raça descendente  dos primitivos cavalos selvagens do sul da Península que sobreviveram praticamente isolados nos sapais de difícil acesso das margens das ribeiras, afluentes do Tejo, Sor  e  Raia (daí o seu nome),  até serem descobertos nas charnecas  de Coruche  em 1920 pelo Dr. Ruy d’Andrade (Fig.2) um ilustre Zoologista  de renome mundial e que foi  o responsável pela preservação desta raça  até aos nossos dias.

 

Os estudos intensivos do Dr. Ruy d’Andrade documentam o cavalo Sorraia (Fig.3). como um descendente direto de uma das quatro primitivas formas dos cavalos selvagens a partir das quais derivam todas as raças de cavalos domésticos do mundo.

Uma das evidencias conclusivas desta hipótese baseia-se em características especificas dos dentes dos cavalos primitivos comuns aos Sorraias e aos cavalos Ibéricos.

O numero total de Sorraias existente em todo o mundo não excede as 200 cabeças e todos eles são descendentes   do grupo original   de 7 fêmeas e 3 machos recolhidos pelo Dr.Ruy d’Andrade  

Daí a sua marcada consanguinidade e o acentuado risco de extinção. A compleição básica do Sorraia e os recentes  estudos de ADN  assemelham-no muito ao Tarpan, o cavalo selvagem indo-europeu extinto no século XIX.


Fig. 2- Dr. Ruy d’Andrade

Fig.3 – Manada de éguas Sorraia

Os Sorraias apesar da sua pequena estatura não são póneis nem devem ser confundidos com os Garranos   esses sim uma raça portuguesa de póneis oriunda do Gêres .

Em geral estes cavalos devido a sua rusticidade e frugalidade têm sido usados ao longo dos tempos como animais de trabalho montados pelos campinos e guardas florestais, mas com o evoluir dos tempos   alguns destes animais tem sido utilizados por jovens cavaleiros na dressage (Fig.4), em competições de  atrelagem, como animal de lazer  e também com excelentes resultados na hipoterapia.  

Os  Sorraias  medem em media 1,48m os machos  e 1,45 as fêmeas, de temperamento calmo  com uma cabeça de perfil convexo ou subconvexo , pescoço arqueado  a sua pelagem característica é a baia ou a cor de  rato, com uma mascara negra, orelhas escurecidas , uma risca  negra no dorso  que liga as crinas á cauda, lista de mulo (Fig.5). são frequentemente riscados (zebrados) nas pernas (Fig.6), antebraços e por vezes também nas espáduas. As crinas e a cauda são negras raiadas de uma cor mais clara e tipicamente não tem marcas brancas.


Fig. 4 – Garanhão Sorraia

Fig. 5 – Lista de mulo

Fig. 6 – Zebruras membros

Continuarei, em breve a contar um pouco mais desta história maravilhosa, que é a evolução do nosso cavalo Lusitano.

António Correia de Mendonça

Médico

Coudelaria Correia de Mendonça e Turismo Rural Couto dos Pardinhos

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