A insuficiência pancreática exócrina (IPE) é uma doença crónica caracterizada pela deficiente produção de enzimas essenciais para a normal digestão/absorção dos alimentos. As enzimas são proteínas biologicamente ativas, tendo as digestivas a função de decompor os macronutrientes (hidratos de carbono, proteínas e gorduras) em moléculas mais pequenas e mais simples, processo este denominado digestão. Segue-se a absorção dos nutrientes, que para ter sucesso, é absolutamente necessário que tenha ocorrido uma eficiente digestão. São as células acinares localizadas no pâncreas que produzem as principais enzimas digestivas. Quando cerca de 90% destas células deixam de funcionar, desenvolve-se uma doença denominada Insuficiência Pancreática Exócrina. Esta doença apresenta-se sob 2 formas: A atrofia acinar pancreática juvenil e a atrofia acinar pancreática. A atrofia acinar pancreática juvenil surge normalmente em cães entre os 6 meses e os 5 anos e apresenta uma predisposição racial. Os cães de raça Pastor Alemão são os mais atingidos, seguindo-se os Collies, Spaniels, Chow Chow e Setters. Nas raças Pastor Alemão e Rough Collie a doença é considerada hereditária. A atrofia acinar pancreática ocorre tanto no cão como no gato. Atinge sobretudo animais mais velhos, embora possa afetar animais de qualquer idade. Encontra-se principalmente associada a pancreatite crónica recidivante. Nalguns casos, a inflamação crónica pode também estender-se às células endócrinas, isto é, produtoras de insulina, razão pela qual alguns animais desenvolvem também diabetes mellitus.

Quais os sintomas?

Os sinais clínicos de IPE incluem: magreza, por vezes mesmo caquexia, polifagia (aumento exagerado do apetite), coprofagia, picacismo, diarreia crónica com aumento do volume das fezes e da frequência da defecação, esteatorreia (Figura 1), flatulência, e ocasionalmente pêlo baço e em mau estado (Figura 2). Ter em atenção que estes sintomas podem ocorrer em outros problemas do foro gastrointestinal.

Fig.1 – Esteatorreia
Fig.2 – Cão com IPE

Como se chega ao diagnóstico?

Para chegar ao diagnóstico de IPE é necessário a realização de uma história clínica detalhada e de um exame físico completo. A abordagem inicial inclui análises de sangue nomeadamente hemograma e bioquímicas, associadas por vezes à urianálise. Frequentemente estes exames não mostram alterações, pelo que é necessário recorrer a um teste de função pancreática denominado trypsin-like immunoreactivity (TLI). É um exame que tem elevadas sensibilidade e especificidade, razão pela qual é o teste de escolha para o diagnóstico de IPE. É importante que a sua medição seja feita com o animal em jejum, sob pena de a sua concentração no sangue poder encontrar-se aumentada devido à presença de alimentos no intestino. No caso de um animal ter iniciado a medicação antes da realização do TLI, não é necessário interrompê-la, uma vez que as enzimas administradas oralmente não vão ser absorvidas pelo trato gastrointestinal, pelo que não atingem a circulação sanguínea. Aquando da suspeita de IPE, a par da medição do TLI deve sempre medir-se a vitamina B12 (cobalamina) e os folatos. Na verdade, a diminuição da cobalamina, ocorre tanto no cão como no gato com IPE, mas é neste último que é mais frequente e mais grave. A hipocobalaminemia, por si só, provoca diversas alterações clínicas.

Como se trata?

O tratamento específico consiste na administração de extratos de enzimas pancreáticas. Devido à IPE ser uma doença crónica e sem cura, a terapêutica é para toda a vida. A melhor forma de apresentação é em pó. Os comprimidos e cápsulas são menos efetivos. Alternativamente, é possível usar pâncreas de porco ou de bovino fresco ou congelado, no entanto na maior parte dos países europeus não é fácil obtê-los. Também deve ser tido em linha de conta que pode haver risco de transmissão de alguns agentes zoonóticos como a Salmonella ou o Campylobacter. Embora a medicação com as enzimas seja muito bem tolerada, em casos raros, pode ocorrer gengivite e/ou sangramento oral. Nesta situação, deve tentar-se diminuir a dose de enzimas, mudar a marca do medicamento ou incubar o pó com a comida antes da refeição. Em alguns animais, para além da terapêutica específica, pode ser necessário associar terapêutica de suporte. A IPE pode criar condições propícias ao desenvolvimento de outras afeções como sobrecrescimento bacteriano/disbiose intestinal, hipocobalaminemia e doença inflamatória intestinal. Assim, e de acordo com a situação em causa e com os sinais clínicos presentes, pode ser necessário recorrer a antibióticos, a cortisona e/ou a administração de vitamina B12. De acrescentar ainda que animais com IPE como resultado de pancreatite crónica, que desenvolvam diabetes mellitus, precisam de ser submetidos a insulinoterapia. De acordo com os estudos existentes, aparentemente não há vantagem em fazer alteração da dieta na maioria de pacientes, estando esta apenas reservada aos animais que não estejam a responder bem ao tratamento. Deve começar-se por 2 a 3 refeições por dia e posteriormente tentar reduzir-se para duas.

Qual o prognóstico?

A IPE embora seja uma doença irreversível, tem um bom prognóstico. A resposta ao tratamento é normalmente visível nas primeiras semanas, com o animal a aumentar de peso e a diarreia e o volume fecal a diminuírem. Mesmo em cães e gatos com IPE devido a pancreatite crónica grave, o prognóstico é surpreendentemente bom na maioria dos casos, inclusivamente aquando de diabetes mellitus concomitante, com um tempo de sobrevivência de vários anos. A presença de hipocobalaminemia grave tem sido associada a um prognóstico menos favorável. Do conhecimento do autor, existem apenas dois estudos científicos, ambos nos EUA, cujo principal objetivo foi avaliar a sobrevivência de cães devidamente medicados. Concluíram que o tempo médio foi superior a 5 anos. Um dado surpreendente foi que cerca de 20% de cães com IPE foram eutanasiados no primeiro ano após o diagnóstico, devido a deficiente resposta ao tratamento, necessidade de terapêutica para o resto da vida e relutância dos proprietários em gastar dinheiro. Os autores realçam a importância do acompanhamento médico, sobretudo nos meses iniciais após o diagnóstico, de forma a permitir monitorizar a doença e ir adaptando a medicação ao quadro clínico e à respetiva resposta do animal.

Rodrigo Niza

Médico Veterinário

Azevet – Clinica Veterinária Brejos de Azeitão

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