Nos últimos meses temos vivido tempos desafiantes. Em muito pouco tempo tivemos que nos adaptar a uma nova rotina, não só a familiar mas também a da convivência em sociedade. E que ansiedade isso nos incutiu a todos, principalmente nas primeiras semanas, verdade? Tudo isto porque o “homem é um animal de hábitos”, já Charles Dickens o defendia no século XIX, não há volta a dar! Habituamo-nos às nossas rotinas diárias e quando algo falha, o nosso cérebro parece baralhar-se. A rotina traz previsibilidade, “segurança”, faz-nos sentir “em casa”. Porque é que isto acontece? Porque a rotina era imprescendível para a sobrevivência dos nossos antepassados hominídeos e parece continuar inscrita “nos nossos genes”.

Na verdade, a necessidade de rotina é algo comum em todos os seres vivos e os gatos não são excepção. No entanto, os gatos parecem levar esta necessidade de rotina ao extremo para se sentirem seguros. Lembre-se que o gato é um predador, mas também uma presa… mesmo nos dias de hoje. Podemos considerar o gato como o eterno “paranóico pessimista”, que pensa a todo o instante que algo de mal lhe pode acontecer. Não é por acaso que todos os dias às 7h o seu gato se põe em cima de si a miar, que as 8h está em frente do prato a exigir a sua saqueta de comida húmida, que as 14h está no seu local preferido a dormir uma bela sesta… como se de um cronómetro se tratasse. Todos os dias!

Vou por isso dar início a uma série de artigos que irão contemplar as alterações de rotina mais comuns na vida de um gato, de modo a minizarmos o impacto na sua saúde e bem-estar. Hoje vamos falar sobre a chegada de um bebé a casa!

 

A chegada de um bebé é sempre um momento de grandes mudanças no seio familiar.

Para que tudo corra pelo melhor é importante planear a chegada do bebé a casa. Isso vai trazer a tranquilidade necessária para os futuros pais e permitir que esta nova fase não seja uma fonte de stress para o gato.

 

Antes da chegada do bebé

Tudo começa mesmo antes do bebé nascer!

Como falado anteriormente no artigo “Os 5 pilares do bem-estar felino”, os gatos dão muita importância ao “espaço físico” onde habitam. Relembre que um dos cinco pilares essenciais para o bem-estar felino é precisamente os recursos ambientais (zona de alimentação, zona de descanso, zona de brincadeiras, zona de eliminação e zona de exploração). A preparação do quarto do bebé, desde as pequenas remodelações, aos novos móveis, pode ser uma fonte de ansiedade para alguns gatos. Isto poderá ter proporções ainda maiores no caso de ser vedado o acesso do gato ao local onde foram efectuadas essas alterações. Não é assim tão infrequente que o gato não possa entrar e explorar o quarto do bebé, com o intuito de evitar que o berço e o carrinho de bebé fiquem com pelos, por exemplo. No entanto, é de extrema importância que o gato possa entrar e explorar a divisão, que lhe seja permitido esfregar o queixo nas novas mobílias para depositar as suas feromonas faciais (apaziguadoras de stress), pois isso irá ajudá-lo a sentir-se mais calmo e seguro. Lembre-se que o “fruto proibido é mais o apetecido” e vedar o acesso ao quarto do bebé só trará ansiedade ao seu gato. Quer uma dica Alma Felina? Proteja o berço e o carrinho de bebé com mantas de modo a estarem mais protegidos mas permita que possam ser “inspeccionados” pelo seu gato.

 

Pense como um gato: imagine que sem o seu conhecimento é alterada uma divisão da sua casa e que quando se apercebe é impedido de lá entrar. Certamente que isso o deixará curioso, ou até mesmo ansioso. Verdade? Imagine agora como se sentirá o seu gato ao sentir novos odores e não ter oportunidade de averiguar se há algum perigo que possa advir desta “nova” divisão da casa.

 

Nesta fase que antecede a chegada do bebé também é comum que a futura mãe passe mais tempo em casa. A maioria dos gatos vai adorar! Mais tempo para brincadeiras, para grandes sestas…mais tempo para desfrutar da companhia de um do outro. No entanto, alguns gatos mais independentes podem preferir que se mantenha o grau de interacção social habitual. Também não se esqueça que um gato muito dependente de interacção vai necessitar que essa rotina se mantenha, mesmo após a chegada do bebé. Tente arranjar um equilíbrio!

 

O melhor conselho durante o período de gravidez é realizar as alterações na casa de modo gradual e dar sempre oportunidade ao gato de fazer a sua exploração.

Não se esqueça de levar o seu gato à consulta anual de rotina e ter sempre o protocolo vacinal e de desparasitação actualizado.

 

O que vai ser diferente com a chegada do bebé?

Com a chegada de um bebé vão existir muitas alterações que, na maioria dos casos, o gato nunca experienciou. Uma delas é o facto de o bebé ter um cheiro distinto ao dos adultos (ex. leite, fraldas sujas, etc). Com o tempo (explicarei mais adiante como fazer esta habituação) ele vai perceber que o novo odor não acarreta perigo, passando a ser “normal”.

Com o bebé também virá o som do choro, desconhecido até então para a maioria dos gatos. Este é um dos pontos de maior ansiedade e de stress para o gato. Já alguma vez se apercebeu da reacção do seu gato quando algum dos elementos do agregado familiar está mais nervoso ou até choroso? Sim, é muito comum que ele fique “preocupado”, a andar de um lado para o outro (por vezes até se deita ao lado) pois sente que “algo se passa”. Quer uma dica Alma Felina? Comece a reproduzir sons de bebés a chorar (ex. clips de som, programas de televisão) de modo gradual antes da chegada do bebé para que o gato se vá habituando.

Outro desafio para os próximos tempos serão os brinquedos! Além de serem novos objectos no território do seu gato que precisam ser explorados, muitos deles têm luzes oscilantes e emitem sons diferentes dos habituais.

Também como já referi anteriormente, o bebé vai precisar de muita atenção por parte dos pais, sendo frequente a diminuição da interacção social com o gato, que facilmente se ressente.

A chegada do bebé a casa

Após o nascimento do bebé é habitual que a mãe fique uns dias na maternidade até que possa regressar a casa com o novo elemento da família. Aproveite estes dias para levar para casa as roupinhas do bebé usadas e deixe o seu gato cheirá-las. Deste modo vamos estar a habituá-lo ao cheiro do bebé mesmo antes de ele chegar a casa, diminuindo a ansiedade no momento em que o conhecer. O bebé vai parecer-lhe “mais familiar”.

Quando o bebé chegar finalmente a casa deve-se manter um comportamento calmo e tranquilo. Deve-se evitar estar nervoso e ter movimentos bruscos. Deixe o seu gato cheirar o bebé pouco a pouco. Se notar que o gato começa a ficar tenso, termine o contacto e repita este processo ao longos dos dias, em pequenos períodos de tempo.

Nos primeiros tempos pode-se impedir o acesso do gato ao quarto do bebé enquanto ele dorme. Isto pode trazer maior tranquilidade aos pais e permite que se estes se apercebam do comportamento do gato ao longo dos dias. Com o passar do tempo facilmente se aperceberão quando é que o acesso pode começar a ser gradualmente maior.

 

Quando o bebé começa a gatinhar

À medida que o bebé cresce e se começa a movimentar pela casa passa a ser uma potencial ameaça para o seu gato. Ao contrário dos adultos os bebés têm um comportamento mais imprevisível, sendo mais “assustadores” para os gatos. Este facto deve ter sido em conta, principalmente na fase em que os bebés começam a explorar o mundo, colocando o rosto muito perto dos dos objectos que estão a explorar, quando começam a agarrar e a levar tudo à boca.

Lembre-se que o gato prefere que a interacção seja “comandada” por ele e que evitará sempre situações de conflito se tiver oportunidade de “fuga”. É importante que o gato tenha vários “esconderijos” onde se possa sentir seguro e fora do alcance do bebé se necessário. Opte por ter várias caixas de cartão pela casa, muitas prateleiras na parede, camas altas, etc. Supervisione sempre os bebés e as crianças quando estiverem próximos aos gatos, promovendo sempre o modo como devem interagir com eles. É importante que sejam ensinados a acariciar o gato com calma, com a palma da mão e sem puxões de pelo. Pouco a pouco irá nascer uma grande amizade entre o bebé e o seu gato, que durará uma vida.

 

Aproveite esta nova fase da vida familiar com muita felicidade. A maioria dos gatos facilmente se habitua à presença do bebé em casa e não se esqueça que terá sempre o apoio do seu médico veterinário assistente se necessário.

Por hoje terminamos mas voltaremos para falar de mais alterações de rotina (ex. adopção de mais um gato, adopção de um gato com crianças em casa, como introduzir um cão na rotina de um gato, etc). Espero que tenham gostado e que regressem em breve comigo ao Maravilhoso Mundo Felino.

Até lá, mantenham-se em segurança.

Joana Valente

Médica Veterinária

Grupo Alma Veterinária – Hospital Veterinário

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